Os Cosmonautas Perdidos: as vozes que a U.R.S.S. teria apagado da história
Meses antes de Yuri Gagarin se tornar oficialmente o primeiro humano no espaço, dois irmãos italianos afirmam ter ouvido gente morrendo lá em cima. Batimentos cardíacos falhando. Um pedido de socorro se afastando da Terra. Uma voz de mulher relatando chamas. Se as gravações da Torre Bert forem reais, a história da conquista do espaço que aprendemos está incompleta — e a U.R.S.S. teria apagado seus primeiros mártires. Yuri Gagarin, o piloto soviético que orbitou a Terra em 12 de abril de 1961, seria o primeiro a voltar vivo, não o primeiro a subir.
As Gravações da Torre Bert
Achille e Giovanni Judica-Cordiglia eram dois jovens radioamadores que montaram, no fim dos anos 1950, uma estação de escuta caseira batizada de Torre Bert, perto de Turim, na Itália. Com equipamento improvisado, passaram a monitorar as frequências dos lançamentos soviéticos — e alegaram ter capturado várias transmissões misteriosas que sugeriam a presença de cosmonautas soviéticos em órbita. Em novembro de 1960, eles afirmaram ter capturado batimentos cardíacos e respiração ofegante, seguidos por um SOS em código Morse que parecia se afastar da Terra em 28 de novembro do mesmo ano. Além disso, em uma gravação feita entre 16 e 23 de maio de 1961, eles alegaram ter ouvido uma suposta cosmonauta mulher dizendo "estou com calor... chamas... vou reentrar", o que sugeria uma reentrada desastrosa.
No entanto, céticos apontam várias inconsistências nas alegações dos irmãos Judica-Cordiglia. Por exemplo, o russo falado nas gravações apresentava erros gramaticais, e as frequências e o efeito Doppler observados não eram consistentes com uma órbita real. Além disso, não houve confirmação independente de radares ocidentais, como o NORAD, que rastreava lançamentos soviéticos. Essas inconsistências levantam dúvidas sobre a autenticidade das gravações e a existência dos "cosmonautas fantasmas".
Para entender melhor o contexto em que essas alegações surgiram, é importante considerar a época e o lugar. A Guerra Fria estava em pleno andamento, e a corrida espacial entre os Estados Unidos e a União Soviética era intensa. A União Soviética estava determinada a manter sua liderança na exploração espacial, e qualquer incidente que pudesse comprometer essa liderança era potencialmente perigoso. Nesse cenário, a possibilidade de que a União Soviética estivesse ocultando incidentes com cosmonautas torna-se mais plausível.
Além disso, existem casos reais que alimentaram a teoria dos "cosmonautas fantasmas". Por exemplo, a morte de Valentin Bondarenko em um treinamento em março de 1961, devido a um incêndio em uma câmara de oxigênio, foi ocultada até 1986. Além disso, o cosmonauta Grigori Nelyubov foi apagado de fotos oficiais após sua expulsão do programa. A morte real de Vladimir Komarov na Soyuz 1 em 1967, bem como a tripulação da Soyuz 11 em 1971, também contribuiu para a especulação sobre a existência de "cosmonautas fantasmas".
Esses incidentes, embora não sejam diretamente relacionados às alegações dos irmãos Judica-Cordiglia, sugerem que a União Soviética estava disposta a ocultar informações sobre incidentes com cosmonautas. Isso levanta a questão de se outras informações poderiam ter sido ocultadas, incluindo a possibilidade de que cosmonautas tenham morrido em órbita antes do voo de Gagarin.
A Investigação Oficial
Historiadores, como James Oberg, especialista americano no programa espacial soviético, investigaram a teoria dos "cosmonautas fantasmas" e não encontraram evidências de mortes orbitais pré-Gagarin. A abertura dos arquivos soviéticos pós-1991 também não revelou a existência de cosmonautas perdidos. Isso sugere que a teoria dos "cosmonautas fantasmas" pode ser mais um mito do que uma realidade.
No entanto, a investigação oficial não pode descartar completamente a possibilidade de que os irmãos Judica-Cordiglia tenham capturado algo real. A falta de evidências concretas e a ausência de confirmação independente não significam necessariamente que as alegações sejam falsas. Pode ser que as gravações sejam autênticas, mas que a interpretação delas seja errada ou que sejam parte de um teste ou experimento soviético que não foi divulgado.
A investigação oficial também não pode explicar o que exatamente os irmãos Judica-Cordiglia capturaram. Se as gravações não são de cosmonautas soviéticos, então o que são? A resposta para essa pergunta permanece um mistério, e é possível que nunca saibamos a verdade sobre as gravações de Torre Bert.
Teorias e Explicações
Existem várias teorias e explicações para as gravações de Torre Bert. Alguns acreditam que as gravações sejam autênticas e que os irmãos Judica-Cordiglia tenham capturado transmissões reais de cosmonautas soviéticos. Outros acreditam que as gravações sejam falsas e que os irmãos Judica-Cordiglia tenham criado uma história para chamar a atenção.
Uma teoria é que as gravações sejam parte de um teste ou experimento soviético que não foi divulgado. Isso poderia explicar a falta de evidências concretas e a ausência de confirmação independente. Outra teoria é que as gravações sejam de uma fonte desconhecida, como um satélite ou uma espaçonave que não foi divulgada.
No entanto, nenhuma dessas teorias pode ser comprovada, e a verdade sobre as gravações de Torre Bert permanece um mistério. É possível que nunca saibamos a verdade sobre as gravações, e que elas permaneçam um dos grandes mistérios da exploração espacial.
Além disso, o impacto cultural do caso dos "cosmonautas fantasmas" não pode ser ignorado. O caso tem sido objeto de vários documentários, livros e artigos, e continua a fascinar o público. A especulação sobre a existência de cosmonautas perdidos tem se tornado um tema recorrente na cultura popular, com referências em filmes, séries de TV e outras obras de ficção.
O caso também tem sido objeto de investigações posteriores, com alguns pesquisadores tentando descobrir mais sobre as gravações de Torre Bert e as alegações dos irmãos Judica-Cordiglia. No entanto, até agora, nenhuma dessas investigações tem sido capaz de fornecer uma resposta definitiva sobre a autenticidade das gravações ou a existência dos "cosmonautas fantasmas".
O que Permanece sem Resposta
O balanço final é desconfortável dos dois lados. Contra as gravações pesam o russo gramaticalmente errado, as frequências inconsistentes com uma órbita real e o silêncio dos radares ocidentais que rastreavam cada lançamento soviético. A favor da desconfiança pesa um fato incontestável: a U.R.S.S. escondeu mesmo seus mortos. Valentin Bondarenko queimou numa câmara de treinamento em março de 1961 — três semanas antes de Gagarin — e o mundo só soube em 1986, vinte e cinco anos depois.
Os arquivos soviéticos abertos após 1991 não revelaram nenhum cosmonauta perdido em órbita. Mas também não explicaram o que dois rapazes com antenas caseiras captaram naquelas madrugadas de 1960 e 1961. Um governo que apagou homens de fotografias pedia confiança; dois amadores com um gravador pediam apenas que alguém escutasse. Entre um e outro, o espaço guarda a resposta — e o espaço, como a U.R.S.S., nunca teve pressa em contar seus segredos.
Este caso também está em vídeo.
Assista à investigação completa no canal Mistério Real: